Assisti novamente "Pequena Miss Sunshine". Passou na TV aberta. O caso é que vi no filme coisas das quais ainda não havia me dado conta... Bem o espírito dessa época do ano: empurrando a van amarela a família segregadíssima segue junta e prol de um sonho no qual absolutamente ninguém acretida. Mas deu tão certo! Tudo dá certinho, tudo se encaixa com o humor necessário. Que filme bárbaro! Sigamos empurando a van cheia de idéias, novidades, diferenças, emperrando vez em quando, fluindo em outras ocasiões, e sendo bem atrevidos como a pequena miss mostrou ser. Ótimo 2010. Que tenha mais Som que Fúria e que não seja um idiota contando. Rá! Em Macbeth, William Shakespeare definiu a vida como "uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada".
Estão todos reunidos para falar sobre o que fazer com o aquecimento global. Como poluir menos, o que fazer com as mudanças climáticas, etc etc.
Todo mundo lá em Copenhagen.
Pouquíssimo tempo antes, surgem boicotes disfarçados:
"O clima não está tão ruim quanto parace. Está inclusive melhorando!"
É mesmo? Não é o que dizem os termômetros do mundo.
"A culpa não é das grandes indústrias. Isso é uma verdade coveniente! "
É mesmo? Coveniente parece ser dizer algo assim.
"O aquecimento global( se é que há algum) é um fenômeno natural. Outros planetas já passaram por isso: Plutão, Marte..."
Mas Plutão não deixou de ser planeta em 2006?
E surgem mil teorias contrárias, bodes expiatórios diversos, Universidades renomadas, doutores em clima...
Lá se vai Copenhagen, lá se vai Kyoto e seus protocolos. Em 2012 expirará Kyoto... coincide com o fim do mundo que Hollywood anda a anunciar depois que comprou a patente dos Maias?
Bláh!
Comprem seus protetores solares, bonés, terços para reza, guarda-sol e contruam seus barquinhos! A China e os EUA já estão decidindo por todos.
Desejo sorte.
Foram para Copenhagen tirar férias os governantes?
Aniversário! Bom mesmo. Pareço exatamente a mistura de todas as idades que somo. Choramingo feito criança de um ano, tenho a serenidade de 32 anos, a ansiedade da adolescente de 17 anos, a fúria dos 22, a curiosidade dos 3 anos, a longevidade das primeiras 24 horas... a aparência que menos importa nesse mundo imenso! Engatinhando pela vida, assumo todas as possibilidades para poder ser feliz. Olhar pra frente e dizer: quero viver isso ainda! Olhar pra trás e dizer: fui eu quem fiz! Presentinho que recebi e transfiro:
Final de semana e, mais uma vez, acabou a comida dos gatinhos. Resultado: "se mande para o supermercado patroa e compre a comidinha no nosso sabor predileto além de areinha higiênica que também acabará logo em breve".
Cumprindo ordens felinas, lá me vou.
Escolhe, escolhe, segue-se ao caixa de pequenas compras( teoricamente deveria ser rápido... teoricamente) e a saga se inicia. O caixa de compras rápidas serve pra tudo, exceto para compras rápidas. Serve para pagamento de boletos bancários, para compras do mês, para reclamações com o gerente, para contar moedas de um centavo na hora de pagar a conta de 37 reais e para tomar seu tempo e paciência. Enfureço só de ver umas comprinhas com mais de 20 itens na fila de caixa pequenas compras. Parei de contar os itens nos carrinhos alheios para evitar as rugas desnecessárias e prejuízo com botox no decorrer dos próximos 15 anos.
De conhecimento da LENTIDÃO do caixa rápido, os supermercados dispõe mercadorias em tooooooooooda longa fila em Z com algumas óbvias finalidades: que se passe o tempo de modo mais proveitoso e, essa mais forte, se consuma mais. Dentre as mercadorias, cito: chocolate, chocolate, revista de viagens, chocolate, revista Veja, papai Noel de chocolate, revista de fofocas, chocolate e... a surpreendente capacidade de prever novelas das 'revistas tico-tico no fubá', além de , claro, mais chocolate. Revistas tico-tico falam sobre como perder 10 Kg( DEZ! dê, é, zê! DEZ quilos) em um mês sem sofrer( SEM SOFRER! ésse, é, eme! SEM!), atualizam sobre quem está solteiro e quem casou no mundo televisivo, antecipam os capítulos das novelas, antecipam os capítulos das novelas e antecipam os capítulos das novelas. Já na capa de “Siricotico na saia” lê-se: Fulaninha voltará a andar após doação de células troncos do filho de Helena. Tá, da novela das oito só sei mesmo o nome de Helena e, por mim, todos os personagens chamariam Helena. Seriam: Helena Maia, Helena Morais, Helena Sanches, Helena da Silva, Helena empregada, Helena pai do tio, Helena Maradona, Helena Gêmeo bom, Helena Gêmeo mau, Helena Leblon... e assim seguiriam os capítulos. Mais fácil.
O fato é que fiquei sem palavras com essa “manchete”. Como assim? Como? Por que? Caramba, preciso me pronunciar! Não assisto a novela porque me cansa infinitamente pensar em nomes e arrumar motivos pra tudo. Os diálogos são falíveis e a lógica é totalmente ilógica. O que deveras impressiona é que, mesmo sem acompanhar a novela, sei que Helena Morais teve um acidente, ficou paraplégica e culpou Helena Araújo por isso. O detalhe é que NÃO FAZ O MENOR SENTIDO Helena Araújo ser culpada. Foi acaso do acaso e a coitada não colocou o pé propositalmente para a outra cair e quebrar o pescoço. O que sei é que foi um acidente de ônibus e tals. Helena Araújo até bofete já levou por conta do destino da Morais. Destino agora tem culpado!
Sei de tudo isso vendo a TV sem me ater a absolutamente nada. Difícil? Naaaaaaaaaada. Facílimo. Se a pessoa assistiro jornal da noite, obrigatoriamente saberá da novela, passa tudo no intervalo. Aff.
Repetindo: Destino agora tem culpado????? Foi o que o autor decidiu.
Maaaaaaaaaaaaaaaaaaaaas, sapientemente, o autor- Manoel Helena Carlos- achou que destino também tem desculpado e arrumou um pivete, gerado pela culpada do destino alheio, para desculpá-la. Confuso? Pra mim também. Mas, vem cá, perdão precisa de um motivo maior? É isso agora? Para tetraplegia: doe células tronco e tudo fica “na boa”. Pelo que me lembro, perdão é algo que se dá sem motivo aparente. Perdoa-se quando se sente pronto para tal. Perdoa-se por perdoar. Perdoa-se por ser humano e nobre. Perdão não é amigo-secreto. Não se vende, não se compra, não se acha na esquina, não se troca numa pizzaria... Perdão se pede e se dá. De graça! Sem motivo maior ou gigantesco, como é o caso.
Mas se decidirmos mudar o parâmetros, avisem-me antes. Por favor, avisem. Hollywood está perdendo feio para terras tupiniquins e o México que cuide de suas 'noveliscas'.
Mariela é médica. Não se considera mátir, apenas médica. Ajuda quando querem e pode fazê-lo. O dia a dia é cansativo porque os problemas são cansativos. Mas, assim como diversos tantos colegas de profissão, foi treinada por seis anos antes de entrar no covil dos leões.
O fato é que Mariela atende cerca de 30- 40 pessoas por dia. Às 16:40h de um quinta-feira surge o caso em questão:
-Boa tarde.
-Boa.
-Como vai dona Alzira?
-Vou bem doutora
-E o que traz a senhora pra mim?
-Sabe o que é doutora... eu fiquei viúva tem pouco tempo...
-Sim
-Pois, foi muito tempo de casada. Meu marido não era fácil sabe...
-Sei... mas eu sou endocrinologista
-Sim, eu sei. Vou chegar lá.
-Certo. Fique à vontade dona Alzira. À vontade dona Alzira.
-Então. Tenho 61 anos, não sou nenhuma menina, sei disso, mas quero ver se posso ser feliz ainda.
-A senhora não é feliz dona Alzira?
-Agora sou. Não fui não. Mas agora sou.
-Então o problema já foi resolvido... a senhora É feliz.
-Não, não. Tem quase nada resolvido não. Eu quero mais!!!
-Pensando melhor dona Alzira, concordo! Não há limites para a felicidade. Conte-me seu plano.
-Olha só doutora, o que a senhora acha do meu peso? Estou me achando um pouco acima. Queria fazer uns retoques no "visú"
-Visú!!!! ... sei sei
-Quero que a senhora me ajude a ficar mais bonita. Quero perder peso. Tecnicamente, quantos quilos a senhora acredita que eu deva perder?
-Dever, não deve nada. Mas se a senhora, por exemplo, fizesse atividade física, fortaleceria o corpo e a alma.
-Quero saber de alma não doutora. Alma é para os jovens e os mortos. Alma deixe pro finado Izaias. Que Deus o tenha e o mantenha bem longe de mim. Quero saber é do "corpitcho".
Mariela cogitou que tipo coisas dona Alzira vinha lendo, ou assistindo, ou contactando para poder usar palavras tão inapropriadas para sua idade cronológica. Mas simpatizou muito com a idéia de que uma mudança já no palavreado revela mais do que a necessidade de uma mudança corpórea.
-Mas o exercício físico poderia fortalecer sua musculatura, ajudá-la a perder peso, conhecer umas pessoas... paquerar um pouquinho... um um
-É... Mas pare de enrolar doutora. Quantos quilos eu deveria perder?
-Dona Alzira, a senhora não recisa perder absolutamente nada. Com um charme desses, essa cor de pele, os cabelos com ótima textura, os olhos de quem quer viver. A senhora precisa é retocar o cabelo com uma cor que lhe caia bem, vestir umas roupas mais adequadas para seu estilo inovado. Vá à praia para repor vitamina D e retardar envelhecimento, à nutricionista para receber uma boa educação alimentar, procure uma atividade física que lhe satisfaça, vá ao cinema, passeie na rua, tenha um animal de estimação...
-Mas aí doutora, não muda o corpitcho.
-É, não muda muito não. Façamos o seguinte: vou pedir uns exames pra senhora, encaminha-la à nutrição, uma nutricionista bem alto-astral né...
-Isso.
-Quando a senhora retornar com os exames, conversaremos novamente. A pressa não anda de mãos dadas com a perfeição. A senhora sabe isso melhor do que eu. O que acha?
-OK.
Em um mês retornou dona Alzira. Cabelos escurecidos, baton "rosa tom da moda", um broze de dar inveja e um quilo a menos no "corpitcho".
-Dona Alziiiiiiiiiiiiiiiiiiira. Por que demorou para retornar?
-Ah doutora, fiz tudo que a senhora me mandou fazer. Estou malhando agora... sabe, "fazendo física"?
-Sim, claro. Sei sim. Sei exatamente o que é "malhar".
-Fui 'no cabelereiro, no esteticista, malho o dia inteiro, pinta de artista' igual àquela música de Seu Jorge. Sabe quem é doutora?
-Sim... sei Alzira.
-Aprendi a comer melhor com a nutricionista que a senhora me indicou. Dei umas dicas pra ela também
-Ótimo! Acho mesmo que ela estava precisando de umas dicas da senhora. Sei bem do que está falando.
-Fiz uns adornos no corpo também.
-Que tipos de "adornos"?
-Nada demais. Tipo maquiagem.
-Então, está tudo bem com seus exames. Venha me ver quando desejar Alzira. Não suma, por favor. Preciso de umas dicas também.
-Pó deixá doutora. Beijo. Boas festas de final de ano.
-Obrigada Alzira
Eis que a criatura supera o criador. Lá se foi Alzira, com uma blusa transparente nas costas onde se podia enxergar a penumbra de uma tatuagem ocupando o dorso por completo. Algo como um dragão com tons avermelhados e olhos vorazes como só a alma de seu Izaias foi incapaz de perceber.
Adorno? Adorno??? E Mariela achando indiscreto o singelo piercing que traz na orelha!
Sobretudo: [De sobr(e)+ tudo] S.m. 1.Grande casaco próprio para se vestir sobre outro, como resguardo contra o frio. Adv.2. principalmente, especialmente.